O avanço das monoculturas
Na gestão de Tarcísio de Freitas, as práticas agrícolas sofreram um impacto significativo, especialmente nas áreas destinadas à agricultura familiar. Desde a entrega de títulos de domínio aos assentados, uma mudança notável ocorreu, favorecendo a expansão das monoculturas em detrimento de uma agricultura diversificada e sustentável.
Recentemente, os agricultores do assentamento Dom Tomás Balduíno, após receberem seus lotes, foram surpreendidos por propostas para arrendar suas terras para a plantação de cana-de-açúcar. Essa estratégia, de acordo com Valmir Ulisses Sebastião, um agricultor local, foi uma tentativa clara de convidar o agronegócio para explorar as terras anteriormente destinadas à agricultura familiar.
A presença de representantes de grandes indústrias agrícolas, como a norueguesa Umoe Bioenergy, exemplifica essa movimentação. Essas empresas já ocupam vastas áreas na região, utilizando métodos que não priorizam a sustentabilidade ou a diversidade de culturas.
Implicações para a agricultura familiar
A transição para monoculturas apresenta diversos desafios para os agricultores familiares. Com a privatização das terras e as novas legislações, muitos pequenos produtores se veem forçados a aceitar propostas que não garantem a segurança de suas atividades agrícolas.
- Perda de terras: A crescente pressão das monoculturas leva os assentados a considerar vender ou arrendar seus lotes, enfraquecendo seu vínculo com a terra.
- Redução da diversidade de culturas: O foco nas monoculturas, principalmente na cana-de-açúcar e na soja, pode resultar na diminuição da variedade de alimentos cultivados, o que vai contra os princípios da agricultura familiar.
- Dependência de insumos químicos: As práticas agrícolas intensivas exigidas por essas monoculturas muitas vezes levam ao uso elevado de agrotóxicos, afetando a saúde do solo e dos agricultores.
Testemunhos de assentados
Os relatos de agricultores mostram a realidade dura enfrentada nas áreas onde as monoculturas se expandiram. Valmir destaca que após a chegada da usina, a colheita de frutas como o mamão tornou-se inviável devido à contaminação provocada pelos agrotóxicos.
Outros assentados do Dom Tomás Balduíno se sentiram pressionados a arrendar suas propriedades. A influência do Estado neste processo se tornou evidente, com os técnicos do Itesp promovendo reuniões que encorajavam o arrendamento.
Mudanças nas políticas agrárias
As políticas agrárias implementadas sob a gestão de Tarcísio de Freitas têm gerado uma reestruturação drástica do que antes se conhecia como reforma agrária. O foco na entrega de títulos de domínio como forma de regularização tem contribuído para um cenário onde grandes interesses do agronegócio ocupam as terras individualmente arrendadas.
- Desmantelamento da reforma agrária: Ex-servidores do Itesp apontam que a política de reforma agrária no estado está se esvaindo, fazendo com que os assentados se tornem vulneráveis às pressões do agronegócio.
- Leis que favorecem o agronegócio: A aprovação de leis que permitem a privatização das terras públicas e a titulação imediata dos lotes, que antes eram protegidos, demonstra uma mudança significativa na abordagem do governo em relação à distribuição de terras.
Privatização das terras públicas
A privatização das terras públicas e o fortalecimento da agroindústria têm se intensificado, resultando na perda de áreas destinadas à agricultura familiar. No estado de São Paulo, mais da metade dos 150 mil hectares ocupados por assentamentos já não pode mais ser considerado terra pública, após o Itesp iniciar a titulação de 4.142 lotes.
Este movimento não só altera a paisagem agrícola do Pontal do Paranapanema, como também altera a dinâmica social e econômica dos assentamentos, onde os agricultores agora enfrentam a difícil escolha entre permanecer em suas terras ou vendê-las em busca de melhores condições de vida.
Desmonte das estruturas de apoio
A estratégia do governo estadual reflete um desmantelamento das estruturas de apoio à agricultura familiar. O suporte que antes era direcionado para promover o desenvolvimento sustentável e a autonomia dos assentados foi substituído por iniciativas que favorecem parcerias com a agroindústria.
- Ausência de investimentos: Não há recursos sendo investidos dentro dos assentamentos, deixando os agricultores sem opções viáveis de produção.
- Desinformação e medo: Muitos assentados são levados a acreditar que a regularização da titulação é a única forma de garantir a segurança de suas terras, quando na verdade isso pode ser uma armadilha.
Legislação e suas consequências
As brechas legais criadas sob as gestões anteriores, somadas a novas leis, possibilitaram alterações significativas nas políticas agrárias. A Lei nº 17.517/2022, por exemplo, provocou uma mudança na forma como os títulos de domínio são vistos, facilitando a privatização dos lotes.
- Licenciamento imediato: Com as novas legislações, as propriedades podem ser vendidas a qualquer pessoa ou empresa de forma imediata, rompendo com as diretrizes anteriores que priorizavam a agricultura familiar.
- Aumento do monopólio: A entrada de grandes empresas no mercado rural intensifica o monopólio, limitando as opções dos agricultores em pequenos assentamentos.
A luta dos trabalhadores rurais
O cenário atual gerou uma intensa mobilização entre os trabalhadores rurais. Muitos deles formam comitês e se organizam para resistir a essas mudanças e preservar suas terras e modos de vida. A articulação entre as comunidades é essencial para criar uma rede de apoio e resistência a essa nova realidade.
- Unidade nos assentamentos: Ao contrário do que a gestão sugere, muitos assentados percebem que a união é a chave para resistir às pressões e encontrar soluções em conjunto.
- Fortalecimento de movimentos sociais: Os movimentos sociais têm desempenhado um papel crucial ao unir as vozes dos agricultores, fazendo ecoar suas preocupações e lutando por uma política agrária mais justa.
Perspectivas futuras para a agricultura
O futuro da agricultura familiar em São Paulo gira em torno da luta por direitos e a busca por um modelo que priorize a sustentabilidade. Há uma necessidade urgente de políticas públicas que revitalizem a agricultura familiar, proporcionando apoio técnico e financeiro.
- Reestruturação das políticas públicas: O fortalecimento de programas de aquisição de alimentos e políticas que garantam a comercialização dos produtos agrícolas pode oferecer um suporte necessário para os assentados.
- Promoção de práticas agroecológicas: A partir de uma abordagem agroecológica, é possível reverter a dependência de monoculturas e promover uma agricultura diversificada.
Mobilização e resistência dos movimentos sociais
A resistência dos movimentos sociais desempenha um papel vital na construção de um futuro para a agricultura sustentável. A conscientização e mobilização entre os agricultores e grupos de apoio são essenciais para enfrentar os desafios impostos pela expansão das monoculturas e proteger os interesses dos trabalhadores rurais.
- Educação e conscientização: É fundamental informar os assentados sobre seus direitos e as implicações de suas escolhas sobre as terras.
- Articulação política: A capacidade de articular uma ação conjunta entre os assentados e os movimentos sociais pode criar uma frente sólida contra a privatização de terras e favorecer práticas mais justas e sustentáveis na agricultura.